Protestos antimineração no noroeste de Argentina. Imagem: © Greenpeace/Martín Katz.
Por Paula Alvarado
No começo de janeiro, um grupo de ativistas que combate a mineração a céu aberto na província de La Rioja, no noroeste da Argentina, bloqueou a estrada de acesso à serra de Famatina. O objetivo: evitar o início do Projeto Famatina, um acordo entre duas empresas estatais e a multinacional canadense Osisko Mining Corporation para extrair ouro em uma área de 40 quilômetros quadrados, considerada de “excelente potencial” pelos executivos da empresa.
O movimento contrário ao projeto foi ganhando notoriedade e culminou, na última quinta-feira, em uma manifestação composta por mais de dez mil pessoas e mobilizações menores em diferentes pontos da Argentina. Em resposta, o governador de La Rioja anunciou que o projeto será temporariamente suspenso até a criação de uma “campanha de informação” à população e a realização de um plebiscito.
Os protestos voltaram a colocar a mineração no centro das discussões no país. Um caso interessante do Japão demonstra que esta não é a única opção.
A favor e contraManifestantes e organizações ambientalistas temem o uso de cianureto e a contaminação da água da região, uma preocupação que tem fundamento: casos como o do Cerro de Pasco, no Peru, são suficientemente aterradores para alimentar uma apaixonada rejeição à mineração a céu aberto.
Já os defensores do projeto (um exemplo é um editoral publicado no jornal El Tribuno) asseguram que irá incentivar o desenvolvimento das províncias e alegam que “sem a mineração, a sociedade moderna não poderia existir”.
O primeiro argumento é bastante discutível: existem outras formas de desenvolvimento além da extração de matérias-primas. O segundo tem um fundo de razão: o ouro não serve apenas para fabricar joias e cunhar moedas (embora estes sejam dois de seus principais usos), mas também para produzir todo tipo de equipamentos eletrônicos (de celulares a satélites) e até viabilizar tratamentos médicos.
Além disso, antes de extrair novos recursos, as empresas poderiam concentrar seus esforços no uso eficiente, recuperação e reciclagem de matérias-primas.
Ouro no lixo
Há dois anos, um artigo da Reuters focalizou um centro de tratamento de águas servidas no Japão, cuja seleção de resíduos recuperava uma quantidade de ouro maior do que a extraída pelas minas mais produtivas do mundo. O centro localizou 1.890 gramas de ouro em cada tonelada de lixo incinerada, enquanto uma das mais importantes minas japonesas extrai de 20 a 40 gramas por tonelada do minério.
O motivo provável: a presença de fábricas de equipamentos de alta precisão nos arredores, cujos resíduos eram transportados nas águas processadas pelo centro.
Uma contradição interessante. Por que explodir montanhas para extrair matérias-primas quando se pode reciclar as já exploradas? Quanto se poderia recuperar de todos os equipamentos que formam a crescente montanha de lixo eletrônico?
Uma leitora da Argentina cita dados da organização Blue Economy: uma tonelada de celulares usados contém 5 quilos de prata, 340 gramas ouro, 140 gramas de paládio e 130 quilos de cobre, materiais que o projeto Metals without mining (Metais sem mineração) propõe recuperar por meio de processos naturais envolvendo bactérias.
A mineração a céu aberto e a contaminação dos cursos de água não são as únicas opções de desenvolvimento, e os ativistas de La Rioja parecem estar plenamente cientes disso. Se seus protestos conseguirem cancelar o projeto definitivamente, será a segunda vez: em 2007, eles levaram a empresa Barrick Gold a abandonar um projeto de mineração na região.
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